Prevenir é melhor que remediar, já dizia a minha avó.

Esta é uma frase de uma época em que as pessoas sabiam da importância de evitar doenças, não apenas porque muitas  delas não tinham solução mas porque o acesso ao atendimento médico era difícil, caro e, por vezes, inexistente. O médico era acionado quando todas as medidas conhecidas pela sabedoria popular eram esgotadas.

Ao longo dos anos a medicina evoluiu, surgiram novos métodos diagnósticos, uma imensidade de medicamentos e o acesso ao sistema de saúde, tanto público como privado, expandiu-se e democratizou. Entretanto, aquela relação de confiança e proximidade entre médico e paciente parece não existir mais e vemos a medicina se tornar despersonalizada . A grande quantidade de medicamentos disponíveis dá a falsa ilusão de que tudo pode ser resolvido apenas tomando um remédio e o médico é apenas um mero prescritor de receitas baseadas em protocolos gerais. Este tipo de medicina hipervaloriza o sintoma em detrimento da causa e, muitas vezes excede no uso de remédios, pois não haverá um acompanhamento do paciente e, não raro, não resolve o problema, principalmente se o mesmo tiver uma causa crônica subjacente.

A visão imediatista faz com que os pacientes procurem atendimentos em emergência de uma forma que nunca se viu antes e as estatísticas são claras ao mostrar que mais de 80% dos atendimentos nas mesmas poderiam ser resolvidos em um atendimento eletivo de consultório.

Quando temos uma casa na qual pretendemos viver por muitos anos sabemos que teremos de fazer manutenções de rotina. Observamos se há presença de vazamentos ou problemas elétricos para repararmos antes que sejam mais graves, limpamos a calha e revisamos o telhado, não é mesmo?

O nosso corpo e mente deverão ser os mesmos por muitos anos ( a vida toda!!), não faz sentido que tenhamos mais cuidado com eles?

Sabemos que existe prevenção de uma infinidade de doenças, principalmente as crônicas, que poderá ser feita através de uma série de orientações após uma avaliação criteriosa pois as pistas aparecem precocemente, devemos estar atentos. Quanto mais o  médico  conhecer o seu paciente, maior será a possibilidade de êxito.

A prevenção de doenças se faz através de uma série de medidas que visam equilibrar o nosso modo de vida com a nossa evolução e ele é o principal responsável pelo aparecimento destas , ao contrário de que se pensa, não são fatores genéticos.

A medicina que se pratica nas emergências, por necessidade, tem que ser baseada em protocolos gerais pois seu  objetivo é resolver problemas pontuais, graves e agudos.

A medicina personalizada vai entender cada indivíduo como único e terá a possibilidade de evitar doenças e até revertê-las criando um vínculo importante de confiança e tranquilidade entre médico e paciente.

Imagem : Tela de Norma Vasconcellos – artista plástica bageense.

Tosse seca e o macaco da febre amarela

Era um dia de consultório daqueles que a gente corre atrás da máquina, agenda lotada de consultas longas e complexas. Chamo o último paciente que, resignado aguardava, um rapaz dos seus vinte e cinco, peço desculpas pelo atraso e ele me diz: ” Não tem problema, doutora. O meu problema é simples: tenho uma tosse alérgica há seis meses…”

Tosse é um sintoma muito frequente tanto no atendimento emergencial quanto nos consultórios clínicos em geral. Não raro, é rotulada como alérgica, e a prescrição de antialérgicos é óbvia, isso se o próprio paciente já não estiver tomando algum por sua conta. Poderíamos parar por aqui, mas quando o sintoma persiste, pode ser bastante desgastante para o paciente, principalmente em se tratando de tosse noturna que prejudica o sono. Neste caso, vemos pacientes que já usaram toda a sorte de remédios anti-alérgicos, corticoides e até antibióticos, sem melhora ou até com agravamento dos sintomas.

Num artigo anterior falamos sobre as alergias e suas manifestações, sabemos que estão aumentando e que o tratamento da causa é tão ou mais importante do que o do sintoma. A pergunta que fazemos é: a tosse seca é sempre alérgica? A resposta é: não.

Investigar este sintoma tão recorrente é fundamental para identificar e tratar efetivamente  a causa.

Várias são as condições  que podem se apresentar através da tosse crônica ou persistente: rinites, sinusites, doenças do refluxo gastroesofágico, alterações inflamatórias intestinais, deficiência de vitaminas (principalmente Vitamina D), efeito colateral de  medicações e várias outras, inclusive manifestações da presença de tumores brônquicos.

A  resistência insulínica, que provoca reação inflamatória sistêmica,  hiper-reatividade brônquica e por sua vez, tosse, tem sido identificada com razoável frequência e, neste caso, a abordagem da causa de base é que irá determinar o sucesso no tratamento . Ao orientarmos mudanças personalizadas de dieta e controle de desencadeantes como estresse e sono, conseguimos uma resolução do sintoma e por conseguinte a prevenção de um quadro que evoluiria inexoravelmente para doenças crônicas com consequências indesejáveis.

Este sintoma tão frequente funciona como o macaco na detecção da febre amarela. Ele sinaliza um desequilíbrio no organismo e pode alertar para a presença de alterações potencialmente graves e passíveis de resolução.

Quanto ao paciente que abriu o nosso texto: ele já havia consultado com vários profissionais e usado diversas medicações e, apesar disto persistia com uma tosse extenuante. Os exames laboratoriais e de imagem mostraram que ele apresentava uma rinite leve, teste de broncoprovocação positivo, insulina de jejum de 15 e dosagem de 25-hidróxi-vitamina D de 14. Foi orientado a mudar sua dieta, recebeu uma suplementação de vitamina D e em menos de 15 dias já apresentava melhora completa da tosse. A rinite desapareceu.